O que é o movimento Maio Amarelo?

Descobertas científicas alteraram a compreensão de como doenças infecciosas são transmitidas, e podem ser prevenidas, motivando uma série de esforços crescentes para impedir a disseminação. A perspectiva de saúde pública em relação ao trauma foi influenciada pelo reconhecimento de que as lesões não são acidentes – são eventos previsíveis e evitáveis.[1]

Na área de oncologia, as campanhas de prevenção são difundidas e têm evocado uma participação efetiva da população. Um exemplo é o “Outubro Rosa”: movimento que começou nos EUA nos anos 1990 difundindo a conscientização e a importância da prevenção do câncer de mama e incentivando a população a participar ativamente de várias iniciativas. Essa mesma campanha começou no Brasil em 2008 com o apoio de várias organizações médicas.

A Assembleia Geral das Nações Unidas emitiu uma resolução decretada em 11 de maio de 2011 definindo o período de 2011 a 2020 como a “Década de Ação para a Segurança no Trânsito”. O documento foi preparado com base em um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) que demonstrou que as colisões de trânsito foram responsáveis por cerca de 1,3 milhão de mortes em 178 países no ano de 2009.[2] Com isso, o mês de maio tornou-se referência mundial para o balanço das ações que o mundo realiza neste tema.

Três mil vidas são perdidas a cada dia nas estradas e nas ruas. É a nona maior causa de morte no mundo.[3] As colisões de trânsito são a principal causa de morte no grupo etário dos 15 aos 29 anos; a terceira na faixa de 30 a 44 anos; e a quarta na faixa de 5 a 14 anos.[4] Elas representam um custo de U$ 518 bilhões por ano – ou uma porcentagem entre 1% e 3% do Produto Interno Bruto (PIB) de cada país.[2]

Se ações efetivas não forem realizadas, a OMS estima que 1,9 milhão de pessoas deverão morrer no trânsito em 2020 (chegando à quinta maior causa de mortes) e 2,4 milhões em 2030. Nesse período, entre 20 e 50 milhões de pessoas sobreviverão às colisões, a cada ano, com ferimentos e sequelas. A intenção das Nações Unidas com a “Década de Ação pela Segurança no Trânsito” é salvar até 5 milhões de vidas até 2020 por meio de planos regionais, nacionais e globais.[5]

O Movimento Maio Amarelo foi lançado no Brasil em 2014 pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) com apenas uma proposta: chamar a atenção da sociedade para as altas taxas de mortes e lesões no trânsito em todo o mundo. O ONSV é uma organização sem fins lucrativos que promove os insumos técnicos necessários para o desenvolvimento seguro do tráfego em favor do cidadão através da educação; pesquisa; planejamento; formação; e ações que geram soluções eficientes com o objetivo de uma convivência harmoniosa entre pessoas, veículos e pistas.[6]

A cor amarela simboliza atenção e também os sinais de alerta em relação ao trânsito. O objetivo desse movimento é uma ação coordenada entre o poder público e a sociedade civil, a conscientização para a questão da segurança viária e a mobilização de toda a sociedade, envolvendo os mais diversos segmentos: órgãos governamentais, empresas, entidades de classe, associações, federações e sociedade civil organizada, para evitar as falácias cotidianas e usuais, para discutir efetivamente o tema, e para propagar conhecimento abordando a extensão que a questão do tráfego exige nas mais diferentes esferas.

Gielen e Sleet categorizaram estratégias de prevenção de trauma em “estratégias ativas ou comportamentais” e “estratégias passivas ou ambientais”.[7] Estratégias comportamentais ativas são projetadas para encorajar as pessoas a tomarem medidas para se protegerem e para proteger outras pessoas contra ferimentos. Por exemplo, isso pode incluir programas destinados a evitar fatalidades decorrentes de colisões de veículos a motor associados ao consumo de álcool em jovens.[8-10] Estratégias passivas ou ambientais são projetadas para alterar produtos ou ambientes para evitar ferimentos. Nesse caso, isso pode incluir a instalação de intertravamentos de ignição em veículos para reduzir a direção prejudicada pelo álcool.[11-12]

O Maio Amarelo é, até o momento, um programa de estratégia puramente comportamental com campanhas anuais objetivando causar espanto à sociedade ao abordá-la aos riscos a que está exposta. Este é um conceito importado da psicanálise, conhecido como Princípio da Realidade, que consiste em exportar a realidade do mundo e as consequências dos próprios atos.[10] Outra iniciativa que segue os mesmos princípios é o programa P.A.R.T.Y., criado no Canadá em 1986 e atualmente presente em vários países – sendo um deles o Brasil, desde 2008. O programa tem como objetivo orientar adolescentes quanto aos riscos a que estão expostos e como suas atitudes podem trazer consequências para o resto de suas vidas. Já foi demonstrado que o programa tem sucesso em reduzir o envolvimento desses jovens em traumas e ajudá-los a ficar mais tempo longe do envolvimento em traumas relacionados a colisões de trânsito.[9-10]

Não é um mistério que as pessoas em todo o mundo sabem que há riscos em dirigir em estradas. Meramente lembrá-las disso é o suficiente para gerar mudança? Aumentar a conscientização não se traduz, necessariamente, em melhorar um resultado e a métrica utilizada para medir os esforços de prevenção em trauma não pode ser apenas “conscientização”. Sensibilizar e mudar a prática nem sempre andam de mãos dadas. Entretanto, dados do InfoSiga, um sistema do governo do Estado de São Paulo, aponta para uma redução de 14,1% nas colisões de tráfego no Estado em maio de 2018 em comparação com maio de 2017.[13]

Por outro lado, ao conscientizar a população sobre o problema, novas medidas são geradas pela pressão social sobre o governo. Um exemplo disso é em Campinas, cidade do interior do estado de São Paulo com mais de 1 milhão de habitantes, onde a entidade responsável pela gestão do trânsito da cidade começou a mapear os eventos traumáticos envolvendo pedestres, motociclistas, e bicicletas com o objetivo de criar um mapa de riscos e promover mudanças no tráfego da cidade para gerar maior segurança viária, além de ter um controle longitudinal sobre essas mudanças. Seus relatórios são publicados anualmente e demonstram uma redução gradual de lesões relacionadas ao trânsito.

Embora seja bem diferente do programa VisionZero, isso pode ser um embrião para a sua versão brasileira, o projeto de segurança no trânsito visa eliminar fatalidades e ferimentos graves em colisões de trânsito. Esta (agora) iniciativa de duas décadas de idade tornou-se um esforço multinacional e chamou atenção substancial para o problema das mortes no trânsito a nível internacional.

O conceito de VisionZero foi originado na Suécia em 1997 quando o parlamento sueco o adotou como política pública. Fundada na crença de que a perda de vidas não é um preço aceitável a pagar pela mobilidade, o VisionZero adota uma abordagem sistêmica para aumentar a segurança. Em vez de atacar exclusivamente os motoristas e outros usuários do sistema de transporte, ele atribui a responsabilidade principal pelos acidentes ao projeto geral do sistema, abordando o projeto de infraestrutura, a tecnologia dos veículos e a fiscalização. A abordagem resultou em sucessos notáveis – a Suécia tem uma das menores taxas anuais de mortes no trânsito do mundo (3 de 100.000 em comparação com 12,3 nos Estados Unidos). Não só isso, mas fatalidades envolvendo pedestres caíram quase 50% nos últimos cinco anos.

Tratando de políticas públicas mais recentes, foi aprovada por unanimidade pelo Senado a Lei 13.722/2018, mais conhecida como Lei Lucas, que torna obrigatória a capacitação em noções básicas de primeiros socorros de professores e funcionários de estabelecimentos de ensino públicos e privados de educação básica e de estabelecimentos de recreação infantil.

O curso deverá ser ofertado anualmente para a capacitação e/ou a reciclagem de parte dos professores e funcionários dos estabelecimentos de ensino e recreação. O nome da nova legislação, Lei Lucas, presta homenagem ao menino Lucas Begalli Zamora de 10 anos que morreu engasgado, com um lanche durante um passeio escolar, sem que ninguém pudesse socorrê-lo. Treinamentos em massa vem sendo executados para a população dentro das atividades do Maio Amarelo, como o realizado pelo Instituto Terzius no dia 10 de maio na cidade de Campinas-SP.

Muitas conquistas aconteceram nos últimos anos. Ter um pouco de conhecimento sobre a trajetória delas pode fazer com que mais pessoas se envolvam e novas ideias apareçam. Esse movimento não possui dono, ele é seu, é de todos nós, e, principalmente, para todos nós.

Autor

Dr. Alcir Escocia Dorigatti – Médico, Cirurgião Geral e de Trauma formado pela UNICAMP. Atualmente é Mestrando pela Unicamp, Instrutor no Instituto Terzius e Cirurgião de urgência no Grupo Surgical.

Referências

1. Mercy JA, Rosenberg ML, Powell KE, Broome CV, Roper WL. Public health policy for preventing violence. Health Affairs; 1993; 12: 7-29.
2. World Health Organization. Road Traffic Injuries.
3. World Health Organization. The top 10 causes of death.
4. World Health Organization. Injuries and violence: the facts 2014. 2015.
5. United Nations Decade of Action for Road Safety 2011-2020.
6. Yellow May Campaign – National Observatory for Road Safety (ONSV).
7. Gielen AC, Sleet DA. Application of Behavior-Change Theories and Methods to Injury Prevention. Epidemiological Reviews. 2003; 25: 65-76.
8. Ehiri JE, Ejere HOD, Magnussen L, Emusu D, King W, Osberg JS. Interventions for promoting booster seat use in four to eight-year olds traveling in motor vehicles. Cochrane Database Systematic Reviews. 2006.
9. Banfield JM, Gomez M, Kiss A, Redelmeier DA, Brenneman F. Effectiveness of the P.A.R.T.Y. (Prevent Alcohol and Risk-Related Trauma in Youth) program in preventing traumatic injuries: a 10-year analysis. J Trauma. 2011;70(3):732-5.
10. Dorigatti AE, Jimenez LS, Redondano BR, de Carvalho RB, Calderan TRA, Fraga GP. Importance of multidisciplinary trauma prevention program for youth. Rev. Col. Bras. Cir. 2014; 41(4): 245-250.
11. Elder RW, Voas R, Beirness D, Shults RA, Sleet DA, Nicols JL, et al. Effectiveness of ignition interlocks for preventing alcohol-impaired driving and alcohol-related crashes: A community guide systematic review. American Journal of Preventative Medicine. 2011; 40: 362-376.
12. Willis C, Lybrand S, Bellamy N. Alcohol ignition interlock programmes for reducing drink driving recidivism. Cochrane Database Systematic Reviews. 2004.
13. INFOSIGA – Base Completa, julho de 2018.

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